10/10/2016

Janeiro/2016

Janeiro/2016


Você está esperando seu primeiro bebê feliz da vida.
Você está esperando seu primeiro bebê feliz da vida e insegura com o “novo” que está por vir.
Você está esperando seu primeiro bebê feliz da vida, insegura com o “novo” que está por vir e cheia de conselhos descabidos, úteis e inúteis que escuta todos os dias.

Minha amada filha, meu amado filho, esperar seu primeiro bebê é também graduar seus ouvidos para longas sessões de dicas, guias e manuais durante alguns meses. Essa tendência costuma aumentar a medida que a gravidez fica mais evidente e se perpetua após, o nascimento. Tornar-se pais é ao mesmo tempo, concluir a graduação e logo em seguida iniciar pós-graduação em dicas para o primeiro ano do bebê. Passado esse período, com vocês graduados na faculdade: Pai e Mãe, vem a fase madura de ser pais e passar com maturidade a fase do comparatismo na sociedade.
Bom lembrar que, se comprar muita roupa de recém nascido perde tudo rápido. Bom lembrar também que, se comprar roupas muito grande seu bebê vai ficar perdido dentro do body! Vale a dica que a poltrona de amamentação se torna logo um trambolho em casa. Vale lembra que, a poltrona de amamentação é super útil, usa muito!
Meus filhos, estou aqui para dizer que na hora de se preparar para receber seu bebê, sorriam muito. Sorriam e agradeçam todos os conselhos que receberem, inclusive o meu. Sorriam muito e jamais contrarie os manuais de instrução alheios. Siga apenas seu coração para tudo. Afinal, se preparar para receber seu bebê é uma viagem louca, é como entrar na primeira fila do carrinho da montanha russa em Tampa e intercalar momentos de medo e incertezas e medo com alegria. A lembrar da minha espera, tenho uma certa lista para vocês! Sorriam se julgarem em seu íntimo desnecessária, sorriam e agradeçam se for útil.
1-Pilhas. Comprem oitocentas mil pilhas para a babá eletrônica. Comprem oito milhões de pilhas Duracell para acalmar seu bebê com a música infernal do balancinho! Comprem três milhões e novecentas mil pilhas para o móbile de berço, dois milhões de pilhas para o ursinho que canta a música Little Star, e abasteçam dobrado o estoque de pilhas quando seu bebê estiver interagindo com os brinquedos. A maioria dos brinquedos até dois anos são mais interessantes com pilha. E certa vez, cheguei a pensar que a Fischer price e as pilhas Duracell tinham um pacto para falir os orçamentos domésticos. Compre pilhas recarregáveis e um carregador de pilhas para dois tamanhos diferentes.
2- Chave Philips. Comprem essa “benção”. Outro pacto secreto das montadoras de brinquedos! Todo brinquedo que precisa de pilha, necessita de chave Philips para abrir o compartimento. Não adianta tentar abrir com a faca da cozinha meus filhos. Compre essa chave. Repito, compre essa chave e não “roube” da caixa de ferramentas.
3- Pão de queijo. Compre setecentas bandejas de pão de queijo congelado. Ou calcule cada visita uma bandeja. Será muito gentil estar sempre preparados para uma visita. Desculpe, para a visita do bebê.
4- Natação. A maioria das escolinhas de natação aceita bebês a partir dos seis meses. Ensinem meus netos a nadarem o quanto antes. Isso não é uma dica, é uma ordem. Mamãe manda, vocês obedecem e meus netos precisam aprender a nadar o mais cedo possível. Meus filhos, algumas coisas podem mudar mas, vocês me obedecerem e meus netos aprenderem a nadar o mais cedo possível é uma ordem. Esse foi meu objetivo desde que os tive. Crianças e piscinas formam um belo conjunto, para histórias felizes ou não.
5- Repitam meu bom exemplo e o que não foi, por favor, me perdoem e lembrem que fiz tentando não errar. Nem sempre é possível mas, para vocês vale também a dica infalível: perdoem-se. Não é fácil ser pais. Mas, é a melhor faculdade da vida. Amo vocês.

Com amor, mamãe.

14/09/2016


Arthur e Ágatha, achei a sensibilidade deste depoimento incrível. Segue essa carta:
Foi apavorante ouvir, pouco tempo atrás, o som que saiu de uma chaleira novinha que eu havia posto no fogão de minha casa, em Volta Redonda. Tive de jogá-la no lixo. O barulho me fez lembrar do momento mais terrível de minha vida, há 71 anos, em minha cidade-natal, Nagasaki, no Japão. Isso porque o chiar era muito parecido ao que as sirenes emitiam durante a Segunda Guerra para avisar a população da chegada de bombardeiros americanos. O alarme indicava que deveríamos correr para nos esconder em abrigos construídos fora de nossas casas. Em 1945, quando o conflito se encaminhava para o fim, eu era uma adolescente de 16 anos e já estava acostumada com aqueles alertas. O tempo todo nós sofríamos ataques de aeronaves B-29. Eu dormia sempre vestida, pronta para fugir ao menor sinal de perigo. Entretanto, a bomba que cairia sobre a cidade no dia 9 de agosto não iria significar – nem para mim nem para o mundo – apenas mais um episódio banal do cotidiano da guerra.

Era por volta das 11 da manhã e eu estava no meio do meu trabalho, em uma fábrica de equipamentos bélicos. Nada sabíamos do que havia ocorrido três dias antes em Hiroshima e que viria a se repetir em Nagasaki. Enquanto eu ajudava uma amiga a limpar a lama de peças de torpedos, um clarão vertiginoso invadiu a vidraça da janela, acompanhado pelo som das sirenes. Na sequência, um estrondo ensurdecedor tomou conta do ambiente. Por sorte, sei hoje, uma parede atrás de mim caiu, inclinada, sobre uma mesa que me serviu de proteção. Tudo ocorreu tão rápido que pensei, por instantes, ter morrido. Quando o barulho parou, apalpei meu corpo: não tinha ferimentos. Não conseguia ver nada; acreditava estar cega. Contudo, aos poucos, a visão voltou e pude observar o que se passara. À minha volta, só havia escombros e muitos, muitos mortos. Saí correndo para casa. No caminho, deparei-me com cadáveres carbonizados, irreconhecíveis como seres humanos, vítimas ensanguentadas clamando por socorro e queimados tentando saciar a sede na beira do rio já contaminado. Nunca se apagou da minha memória a cena de uma mãe segurando firme um bebê já sem cabeça. Ela implorava por água como se ainda não tivesse caído em si. Eu vi – não há outro modo de descrever – o Inferno na Terra.

“Tudo ocorreu tão rápido que pensei, por instantes, ter morrido. Quando o barulho parou, apalpei meu corpo: não tinha ferimentos. Não conseguia ver nada; acreditava estar cega”

Em nossa residência, encontrei minha mãe salva. Naquela noite, nós duas rumamos para um cemitério que ficava no alto de uma montanha – era o lugar mais protegido do caos. Lá, dormimos ao lado de túmulos de desconhecidos, avistando a desoladora paisagem do que havia sido Nagasaki. Seis dias após a queda da bomba atômica na cidade, em 15 de agosto, o imperador japonês anunciou nossa derrota, pondo fim ao conflito. Só que, para nós, a situação não melhorou. Eu tinha medo de me tornar uma vítima dos ataques sexuais protagonizados por soldados americanos que ocupavam nossas terras.

Quando jovem, eu sonhava em ser professora e bailarina. Com a tragédia, tive de me contentar em virar bancária. Em 1953, eu e meu marido não aguentávamos mais viver no Japão. Pegamos, então, nosso filho de quase dois anos de idade e embarcamos em um navio rumo ao Brasil. Aqui nos instalamos na cidade rural de Maria da Fé (MG). Meu esposo, já falecido, e que era piloto da aeronáutica em nosso país, passou a plantar batatas em um pequeno pedaço de terra. Tivemos outros três filhos, abrimos uma bicicletaria e nos mudamos para Volta Redonda. Hoje, apesar de ainda mal falar o português, não voltaria para o Japão – por nada. De lá, guardo apenas a radiação que tomou meu corpo e ainda causa dores e estranhas alterações em minha saúde. E sempre que se aproxima o fatídico dia 9 de agosto, a traumatizante lembrança daquela manhã chega a me deixar de cama.

Depoimento colhido por Talissa Monteiro
Foto por Daryan Dornelles

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